Quando a Montanha Denuncia o País
Há uma cena recorrente nas trilhas brasileiras: grupos de caminhantes bem equipados, mochilas de marcas internacionais, câmeras caras e um itinerário cuidadosamente planejado. A paisagem é deslumbrante. O silêncio da mata parece redentor. Mas basta olhar para os arredores das áreas protegidas — para as comunidades que vivem no entorno, para os trabalhadores que carregam estruturas, para os guias locais — e a fotografia muda de tom. A natureza, no Brasil, nunca foi democrática. E o racismo ambiental é a engrenagem que mantém essa desigualdade funcionando há séculos.
O conceito, cunhado nos Estados Unidos nos anos 1980 pelo movimento negro em torno de conflitos por terra e exposição a resíduos tóxicos, chegou ao debate brasileiro com força nas últimas duas décadas. Ele descreve como populações racializadas — negras, indígenas, ribeirinhas, quilombolas — são desproporcionalmente afetadas por danos ambientais e excluídas do acesso a bens naturais. Não se trata de coincidência geográfica. Trata-se de projeto histórico.
O Mapa da Exclusão Ambiental Brasileira
No Brasil, o racismo ambiental tem endereço. Ele está nos lixões instalados ao lado de comunidades negras. Nas favelas sem saneamento sobre encostas de risco. Nas áreas de mineração que envenenam rios de povos indígenas. E, para o que interessa a este portal, ele também está na trilha — ou melhor, na ausência dela para quem sempre morou ao pé da serra.
Basta um exercício simples: quem são os frequentadores dos grandes parques nacionais brasileiros? Quem ocupa as pousadas de ecoturismo em Tiradentes, Bonito ou Chapada Diamantina? Quem tem tempo, dinheiro e segurança para dedicar um fim de semana à natureza? A resposta, repetida em pesquisas de perfil de visitantes, é quase sempre a mesma: brancos, urbanos, de classe média e alta. O ecoturismo brasileiro, apesar de sua retórica inclusiva, reproduz a mesma pirâmide social que estrutura o país.
Barreira Econômica: O Pedágio Invisível da Natureza
O primeiro obstáculo é o mais óbvio — e o mais ignorado. Equipamentos de trekking, transporte até áreas remotas, taxas de entrada em parques, hospedagem, alimentação. Um fim de semana de trilha em um parque nacional pode custar o equivalente a um salário mínimo para uma família de quatro pessoas. Para quem vive na periferia de São Paulo ou Salvador, a montanha não é lazer: é artigo de luxo.
Pior: as políticas públicas de incentivo ao turismo de natureza raramente alcançam essas populações. Os editais de fomento, os cursos de guia, os programas de visitação escolar — tudo isso existe, mas em escala insuficiente e, muitas vezes, desenhado para um público que já está dentro do circuito. A montanha brasileira cobra ingresso. E o ingresso tem cor.
Barreira Simbólica: Quem Pode Ser Visto na Trilha
Há um segundo muro, menos visível e mais perverso. Ele se ergue quando uma pessoa negra chega a um parque nacional e é confundida com funcionária da limpeza. Ou quando um grupo de jovens da periferia é abordado pela fiscalização com suspeita. Ou quando a publicidade de ecoturismo, ano após ano, exibe o mesmo elenco de corpos brancos e sarados em cenas de aventura.
Essa barreira simbólica opera na linguagem, nos olhares, nas ausências. Ela diz, sem dizer, quem pertence à natureza e quem é intruso. E é por isso que o racismo ambiental não se resolve apenas com ônibus gratuitos ou ingressos subsidiados. Ele exige uma revisão profunda de imaginário — de quem conta as histórias, de quem aparece nas capas, de quem assina os relatos de trekking.
Territórios em Disputa: Quilombos, Indígenas e a Natureza Cercada
Enquanto o debate sobre acesso à natureza avança timidamente nos centros urbanos, nas bordas do país a disputa é outra — e mais brutal. Quilombolas e povos indígenas são os guardiões históricos das áreas de maior biodiversidade do Brasil. E são, não por acaso, os que mais sofrem com a expansão da fronteira agrícola, com a mineração ilegal, com o desmatamento e com a omissão do Estado.
O Censo do IBGE mostra que a maior parte das terras indígenas e quilombolas está em biomas como Amazônia e Cerrado. São territórios que, segundo estudos do MapBiomas, apresentam as menores taxas de desmatamento do país. Ou seja: a conservação ambiental no Brasil depende, em larga medida, de populações racializadas que o próprio país insiste em criminalizar. O paradoxo é cruel. A floresta em pé é resultado da luta desses povos — e o reconhecimento dessa luta continua sendo negado.
O Ecoturismo Como Ferramenta de Justiça — ou de Reprodução
O ecoturismo pode ser uma ponte ou um muro. Depende de quem o opera. Quando comunidades locais assumem a gestão de roteiros, quando guias negros e indígenas são protagonistas, quando o dinheiro circula dentro do território, a atividade se torna instrumento de reparação. Quando o lucro vai embora na primeira van, a trilha vira vitrine de privilégio.
Há exemplos que merecem ser estudados. Projetos de turismo de base comunitária em quilombos do Vale do Ribeira, roteiros indígenas na Amazônia e iniciativas de guias periféricos em parques urbanos mostram que é possível subverter a lógica. Mas eles são exceção — e o setor precisa encarar isso como denúncia, não como vitrine de diversidade.
O Que Está em Jogo Para Quem Faz Trilha
Para quem caminha, a reflexão é direta: sua mochila carrega mais do que equipamentos. Ela carrega uma história de acesso que não é universal. Reconhecer isso não é culpa — é ponto de partida. É entender que a trilha que você percorre foi, por muito tempo, negada a outros corpos. E que o simples ato de estar ali, em silêncio com a montanha, pode ser um gesto político quando feito com consciência.
O debate sobre racismo ambiental não é uma pauta paralela ao ecoturismo. É o seu alicerce. Sem enfrentá-lo, o setor continuará produzindo paisagens belas e sociedades desiguais. E a montanha, que tudo vê, seguirá denunciando o que o asfalto prefere esconder.
📚 Recomendação Editorial de Leitura:
Para quem deseja aprofundar a geografia da exclusão no Brasil, Racismo Ambiental: Uma Introdução é leitura essencial. A obra reúne autores que mapeiam como o racismo estrutural se materializa no acesso desigual à terra, à água e ao ar limpo — e por que a luta ambiental é, antes de tudo, uma luta racial. Um livro indispensável para quem entende que a trilha não é neutra.









