Ecoturismo não é passeio: é campo de disputa
Em julho de 2023, eu subia a Pedra da Mina pela vertente da Serra Fina, na divisa entre Minas e São Paulo, quando encontrei um grupo de voluntários do Instituto Oikos reinstalando placas de sinalização que haviam sido arrancadas na semana anterior. Não era vandalismo aleatório. Eram marcas de uma tensão antiga: fazendeiros da região reivindicam aquelas terras como pasto histórico, enquanto o Parque Nacional de Itatiaia e a Reserva Biológica da Serra Fina tentam consolidar uma área de conservação de Mata Atlântica de altitude. Ali, cada placa fincada é um ato político.
Quem caminha com frequência pelo Brasil profundo já entendeu: ecoturismo não é passatempo de fim de semana. É uma engrenagem econômica que, quando funciona, sustenta comunidades tradicionais, financia brigadas de incêndio e dá argumento jurídico para a permanência de áreas protegidas. Quando falha, entrega o território para a especulação imobiliária e para o agronegócio predatório.
O que os números (e as botas) dizem sobre o setor
Segundo o Anuário Estatístico de Turismo do Ministério do Turismo, o segmento de natureza e aventura movimentou cerca de R$ 3,4 bilhões em 2023, com crescimento de 12% sobre 2022. O ICMBio registrou mais de 26 milhões de visitas às unidades de conservação federais no mesmo ano — recorde histórico. Números bonitos no papel, mas que escondem uma realidade capenga: apenas 6% das UCs federais possuem plano de manejo atualizado, e menos de 30% têm estrutura mínima de recepção.
Traduzindo para quem vive a trilha: sinalização precária, lixo acumulado em pontos de acampamento, conflito com propriedades privadas no entorno e ausência de guarda-parques em trechos críticos. Já vi isso na Travessia do Vale do Pati, na Chapada Diamantina, onde guias locais se organizaram em cooperativa para compensar a falta de fiscalização estatal — e onde, sem eles, a trilha simplesmente se perde.
Três tensões reais que ninguém coloca na prancha do Instagram
- Comunidades tradicionais x turismo de massa: em trechos da Estrada Real, em Minas, pousadas de alto padrão avançam sobre áreas de quilombolas sem consulta prévia, como documentou o Observatório de Territórios Tradicionais em 2022.
- Guias locais x plataformas digitais: agências online revendem trilhas conduzidas por moradores sem repassar o valor justo. O resultado é precarização de quem conhece cada pedra do caminho.
- Conservação x visitação descontrolada: o Parque Nacional da Tijuca, no Rio, recebeu 3,2 milhões de visitantes em 2023 — o dobro da capacidade estimada em seu plano de manejo de 2008.
Uma história de campo: o dia em que a trilha virou assembleia
Em outubro de 2022, durante uma travessia de cinco dias entre São Bento do Sapucaí e Monte Verde, na Serra da Mantiqueira, nosso grupo de oito pessoas parou em um mirante natural. Ao lado, uma placa anunciava: “Área em processo de regularização fundiária — acesso sujeito a restrição”. Um dos integrantes, guia há 15 anos na região, contou que aquele trecho havia sido fechado por três meses após um fazendeiro bloquear a passagem com cerca de arame farpado. A comunidade de trilheiros, organizada em um grupo de WhatsApp com mais de 400 membros, articulou abaixo-assinado, acionou o Ministério Público e conseguiu reabrir o caminho sob regime de servidão de passagem.
Isso não é exceção. É regra. No Brasil, trilha boa é trilha politicamente defendida. Quem acha que basta comprar bota e mochila está despreparado para o que o mato exige.
O que fazer antes de sair de casa
- Verifique se a trilha atravessa terra indígena, quilombola ou área de conflito fundiário (consulte o site da FUNAI e do INCRA).
- Contrate guias locais registrados no Cadastur — e pague o valor justo, sem pechinchar.
- Leve sacos para recolher lixo que não é seu. É parte do protocolo.
- Denuncie desmatamento, cercamento irregular ou queimada ao IBAMA (Linha Verde: 0800 61 8080).
Conservação não é palavra bonita: é prática diária
O ecoturismo brasileiro só se sustenta se cada trilheiro assumir o papel de fiscal, divulgador e aliado das comunidades. Não se trata de romantizar a natureza — trata-se de reconhecer que ela é um território em disputa. Quem caminha sem entender isso está apenas fazendo exercício ao ar livre. Quem entende, está fazendo política com as próprias pernas.
📚 Recomendação Editorial de Leitura:
Se você quer entender como trilhas se tornam territórios de resistência, leia “Caminhante, não há caminho: ensaios sobre montanha e resistência”, de Antônio Carlos Diegues — um clássico brasileiro sobre conflitos socioambientais em áreas protegidas, leitura obrigatória para quem leva a sério o que faz no mato.










